segunda-feira, 29 de agosto de 2016

As armadilhas da ironia





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 O Brasil não é dado a filigranas em humor, ao contrário do mito que fantasia um país de humor inteligente e à flor da pele.
Hoje, jovens escritores e intelectuais são sisudos e por isso se imaginam profundos. A ausência de humor parece dar uma dimensão abissal a seus escritos. Já o humor na televisão é um show de horrores. Há confusão entre grosserias, escatologias, constrangimentos e humor.
Pois o humor, como ensinou o filósofo francês Henri Bergson, implica na suspensão temporária da emoção, que deve dar lugar à inteligência. Mesmo as trapalhadas mais simples – um chute que Carlitos desfere nos fundilhos de alguém – exige que a emoção saia de cena. Se me emociono, não sou capaz de rir, penalizado com os fundilhos chutados – logo os fundilhos, essa parte da anatomia humana que guarda toda a dignidade da espécie.
Com isso perdemos a ironia. Levamos tudo ao pé da letra. O politicamente correto, aliás, se beneficia com essa tolice. O politicamente correto, aliás, é uma tolice.
Um caso emblemático vitimou Agripino Grieco, crítico literário impiedoso. Aliás, triste ironia é que Agripino está hoje apagado da memória nacional, sendo que as nulidades que ele combatia continuam presentes. Podia ser justo ou injusto, mas era sempre sagaz e contundente. Provocador, dizia que Guimarães Rosa escrevia em húngaro. Devo dizer que não concordo com a tirada de Agripino, mas convenhamos que é hilariante.
Pois certa ocasião Agripino, atuante na crítica em jornais, recebeu, enviado pelo marido da autora, um livro de poemas. Os poemas eram péssimos. Versos derramados e frouxos. Coisa de quem não lera nada de importante ou não entendera coisa alguma.
Agripino, de molecagem, escreveu sobre esses poemas capengas coisas do tipo: trata-se de uma obra rara; desde Camões não se publicou nada igual; achados que não encontramos em Dante ou Shakespeare. Cumulou o livro com supostos elogios e com isso se divertiu muito.
Foi quando se deu o caso. Não demorou e o tal livro aparecia em segunda edição, lançada pelo marido, que funcionava como editor. E lá estava, a título de prefácio, o texto de Agripino, salpicado de Shakespeare, de Dante e de Camões. A ironia não foi percebida e o texto foi tomado ao pé da letra.
Eis o perigo da ironia no Brasil. Na Inglaterra, onde se preza o intelecto acima das emoções fáceis, jamais aconteceria.
Há algum tempo, alguém sugeriu a criação de um sinal gráfico para indicar ironia. Existindo ponto de exclamação e de interrogação, poderia existir um para a ironia. Espécie de advertência: trata-se de ironia, sorria e faça pose de inteligente, não leve ao pé da letra. Tal sinal gráfico não passa de uma bobagem e seria um atestado de nossa dificuldade em lidar com coisas escritas.
Conhecido desenhista, habilidoso e oportunista, propôs um ponto de exclamação com um pingo em cima e outro embaixo, mostrando como nos enredamos com questões constrangedoras, entre elas o hífen, a crase e o voto obrigatório. Desacertos nacionais que estão a merecer de um autor inglês um texto fartamente irônico.
Por sorte, o ponto de ironia foi esquecido. O voto obrigatório, não.



quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Futebol e a Teologia da Grana e do Marqueting




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Confesso que ando preocupado com o Todo-Poderoso. Afinal, estará condenado a desaparecer ou se tornará cada vez mais presente?
Como se sabe, Nietzsche decretou no final do século XIX, numa tirada fulminante: “Deus está morto. Assinado, Nietzsche”. O fato é que anos depois o próprio Nietzsche faleceu e alguém escreveu: “Nietzsche está morto, assinado Deus”.
Questão controversa, portanto. Mas, a julgar pelos adeptos que ambos – Deus e Nietzsche – deixaram, talvez a divindade esteja ganhando a parada, já que aumenta o número de igrejas, justo dessas que fazem de Deus uma espécie universal de CEO – Chief Executive Officer em inglês – seria o nosso Diretor Executivo, um administrador de contas bancárias, salários, dividendos, além de curador de todos os males físicos e psíquicos. Todos falam Dele como de alguém que vigia os humanos, distribuindo graças e benesses, bastando para tal que o fiel preencha um boleto e faça o depósito bancário devido.
Mas, se não bastassem as multidões de fiéis que exigem graças imediatas a Deus e que fazem filas para anunciar que foram atendidas – a dor de cabeça passou, o cunhado arranjou emprego, a úlcera sumiu etc. – entre os jogadores de futebol há uma concentração imensa de novos crentes.
Deus passa a ser, então, um supervisor de futebol, um técnico e, mais ainda, alguém que determina quem ganha e quem perde. O goleiro da seleção – Weverton – deu declarações emocionadas pela bela defesa de pênalti que fez no jogo final das Olimpíadas. Mas ele mesmo atribuiu seu sucesso não aos treinos, nem a seu treinador de goleiros ou à sua experiência e talento de jogador. Quem fez com que defendesse o gol foi Deus, que o consagrou.
Eu fico pensando: que estranha ideia de Deus. Estará Ele vigilante para entrar em campo e, súbito – embora seja deus de todos os seres humanos – projetar o goleiro na direção da bola e fazer com que defenda um gol? Deus será a favor do Brasil? Será então contra a Alemanha? Mas onde estava Deus quando levamos aquele humilhante sete a um? E quem disse que Deus está do lado dos vitoriosos? Sei não. Ele não salvou seu filho da morte na cruz. Paulo, o apóstolo, foi decapitado e, Pedro, crucificado de cabeça para baixo. Milhões de cristãos sofreram em catacumbas para defender suas crenças e foram mortos, perseguidos, jogados aos leões nas arenas de Roma.
Então, essa ideia de um Deus executivo de alto nível me parece ridícula. Prefiro o Deus de São Francisco, por exemplo.
E tem mais. Neymar, esse narciso dos gramados, apareceu no estádio onde se disputava a final do vôlei com uma faixa na testa na qual se lia: “100% Jesus”.
Mas que ninguém se iluda. Embora Jesus tenha pregado o amor, a paz, a compreensão, a humildade, o perdão, o Neymar, entre outras boçalidades, avançou na direção de torcedores e, dizendo-se injustiçado pelas críticas, ameaçou distribuir bofetões em desafetos.
É verdade que estava rodeado por uma dúzia de seguranças, não exatamente por Jesus, e é duvidoso que tivesse tanta coragem caso os seguranças não estivessem ali.
É indiscutível que Neymar tem um grande talento com a bola, mas não passa de um menino imaturo, mimado em excesso, um tipo de cabeça e coração vazios. Usa o nome de Jesus, mas de fato tem um comportamento de publicano. Imagina que Jesus é um administrador de suas contas bancárias e de seus passes.
Por isso, não suporta críticas. Aliás, é de se perguntar: criticar é proibido? É óbvio que a seleção jogou extremamente mal nos primeiros jogos.
Eis aí um caso complicado. Não sei o que Nietzsche pensaria disso. Talvez fosse a uma igreja e dissesse a Deus: o Senhor, embora ainda esteja vivo, está muito mal acompanhado. Ou talvez não desse importância alguma aos que usam o nome de Deus não apenas em vão, mas em seu próprio benefício, seja financeiro, profissional ou de marqueting.
Eu, que nem sei se creio em Deus – embora espere que Ele acredite em mim – penso que o Todo Poderoso deve andar tiririca com esses tipos. Se um dia os encontrar nos espaços celestiais, acho que vão sobrar puxões de orelha pra todo lado.




segunda-feira, 8 de agosto de 2016

O narcisismo no futebol brasileiro








Os entendidos em futebol – não é o meu caso – dizem que vivemos uma entressafra de talentos. Os jogadores disponíveis são poucos e medianos, o que não permite formar uma seleção sequer razoável.
Não concordo. E, como não entendo de futebol, dou meu palpite.
Jogadores brasileiros jogam nos cinco continentes, são contratados a peso de ouro e ganham muito mais do que o comum dos mortais. E onde jogam são as estrelas, seja na Turquia ou na França. Será que os milionários donos dos times europeus gastariam seus trocados com jogadores medíocres?
Não acho que falte talento. Se não temos – e isso é preciso admitir – safras de gênios da bola como em outros tempos, temos alguns talentos acima da média. Não temos um Zico, mas temos Neymar. O que falta, então?
De técnicos vamos mal, sobretudo nas seleções recentes. Indicar Dunga para técnico da seleção foi uma temeridade. Felipão ganhou uma copa, mas com Ronaldo de centro avante, nem sei se precisava de técnico. Qual o verdadeiro Felipão: aquele da copa que o Ronaldo ganhou ou o perdedor de 7 a 1?
No momento, nos agarramos ao Tite, o milagroso, técnico de respeito.
Minha opinião é a seguinte. Futebol é jogo coletivo. Não sem motivo se chamava originalmente Football Association. O talento individual é tão grande quanto capaz de jogar pelo conjunto. Nas peladas – e dessas eu entendi – quando surge um jogador que não joga para o coletivo, ele recebe a pecha maldita de fominha. Um fominha pensa que ganhará sozinho, que não precisa de ninguém, que é o centro do jogo. Nas peladas, ou o fominha se reforma ou cai fora.
Na seleção não se vê jogo coletivo. Vemos um bando desesperado indo de um lado para outro. Mesmo uma seleção fraca como a do Iran, quando defendia ou partia para o ataque, era movida por uma estratégia coletiva. Os jogadores sabiam para onde ir, com quem trocar passes e como.
Já os jogadores brasileiros parece que se conheceram na véspera do jogo. Não sabem onde cada um deve se colocar e o que fazer e como. Irritam-se com facilidade; são bibelôs. Meninos mimados. Caem a qualquer encontrão. Ficam dodói. Reclamam do juiz bestamente, sem razão e fora de qualquer disciplina de jogo.
E tratam dos cabelos. O Gabi Gol tem a cabeça construída como verdadeira obra de arquitetura capilar. Barba, sobrancelhas, cabelo – tudo projetado e produzido com recursos arquitetônicos. Neymar, que parece ter começado a moda atual, muda de penteado a cada jogo. Ninguém se despenteia, aliás.
Ora, o narcisismo é avesso a ações coletivas. É ególatra por natureza. Basta observar como os narcisos ficam nervosinhos com facilidade. Grandes jogadores não ficam irritados, respondem na bola. Não caem em provocações. Pelé, que era disciplinado em campo, lutava feito pantera e raramente reclamava. Respondia às botinadas com um sorriso e um chapéu.
Por isso, a partir de agora só vou assistir jogos da seleção feminina de futebol. Elas jogam em conjunto. Disputam a bola como quem luta por um prato de comida. Se uma tem a bola, duas ou três se colocam em posição de receber o passe. O time avança ou recua em conjunto, conforme o momento do jogo. E, havendo chance, metem bala. Entram em campo para ganhar ou ganhar. São determinadas. Podem perder – e isso faz parte do jogo – mas não deixam de jogar.
São mulheres, algumas muito bonitas, e são vaidosas. Mas se limitam a prender o cabelo e usam maquiagem simples. E não temem jogadoras maiores e mais fortes. E se permitem fazer gol de letra, dar balão em zagueiros, ficar calmas mesmo diante de arbitragens incompetentes. O negócio delas é a bola.
Pelo empenho com que jogam, percebemos que não são narcisistas. Sabem que têm um objetivo comum e agem em função disso.
O importante, portanto, não é querer a medalha de ouro. O essencial é querer jogar o jogo, é entregar-se a ele como conjunto. Eis a graça do chamado esporte bretão.
Como seria demasiado extenso, não desenvolvo a questão do narcisismo em outros setores da vida brasileira, mas creio que os leitores saberão fazer isso com facilidade.




terça-feira, 5 de julho de 2016

A Vespa






Nosso primeiro encontro quase termina em desastre. Entrei na cozinha e um inseto negro voou em ziguezague na minha direção – por pouco não acerta meu nariz. Minha reação foi imediata: tentei um tabefe. Errei longe. Em novo zig ou zag, o bicho escapou e sumiu.
Esqueci o assunto, peguei um café e fui cuidar da vida.
No dia seguinte, quase na mesma hora, fui à cozinha e lá estava ela, dependurada na beira da tampa do vidro de mel, num alpinismo desesperado. Ia e vinha, enfiava o bico na rosca da tampa, rodopiava em busca de melhor posição.
Achei engraçada a sua insistência. Parei ao lado da mesa e ela, talvez chateada com meu riso irônico, disparou em voo incerto, aquele em ziguezague, e foi na direção da janela, que estava fechada. Temi que se espatifasse contra o vidro, mas ela mudou de rota, manobrando um brusco ângulo de 90 graus, e foi na direção da área de serviço. Disparou janela afora.
Embora o bicho – era assim que a via, lamento – tivesse me parecido apenas engenhoso e insistente, resolvi depositar uma colher de mel num pires que coloquei sobre a mesa.
No dia seguinte me visitou o meu amigo Carlos Dala Stella trazendo um pão daqueles que inventa só para causar inveja aos amigos que não são capazes de fazer um biscoito. Eu fiz o melhor café de que sou capaz e estávamos sentados à mesa da cozinha para continuar nossos papos delirantes sobre tudo e sobre coisa alguma.
Foi quando ela voltou. Ela, a vespa. O Carlos levou um susto, eu me afastei do pires e ficamos observando seu voo incerto, de bruscas mudanças de rota. Circundou o pires, sobrevoou o mel, deu um rasante junto ao meu nariz e aterrissou no pires.
Ficamos observando. Ela se aproximou da beira daquele marzão de mel e se imobilizou a sugar. Nós sequer falávamos. Aliás, nem ela, a vespa.
Foi quando, súbito, ela levantou voo na direção da janela da área de serviço. Mas mudou de plano de voo e saiu pela janela da cozinha. Instável, pensei, muda de rota. Imprevisível. Do sexo feminino, certamente.
Eu e o Carlos voltamos ao pão, ao café e aos nossos delírios de final de tarde.
Desde então a vespa retorna todos os dias, não raro mais de uma vez, embora não falte na hora do café. Surge de inopino – acho que essa palavrinha descreve bem as suas aparições. Suga um bom bocado e se vai.
No terceiro dia, mandei uma foto para o Carlos comprovando que ela continuava me visitando.
E assim continuamos, eu e a vespa. Quando terminava a cota de mel no pires, eu repunha. Abri um espaço na mesa criando uma espécie de campo de pouso para a vespa. Curiosamente, ela retornava na hora em que eu estava tomando café. Tirava um fino na minha cabeça, sobrevoava o pires, ameaçava ir para um lado, ia para outro, afinal aterrissava e ali ficava ao meu lado. Eu tomando café, ela sugando o mel.
Éramos felizes, eis tudo.
Mas eu, não sendo vespa, tenho essa mania humana de pensar: onde ela se enfiava nos intervalos das visitas que me fazia? Eram dias de sol muito forte, mas poderia chover e, nesse caso, também as vespas precisam de um abrigo.  Onde seria a casa daquela vespa? Olhei em volta do prédio, me debrucei nas janelas, nada. Seria uma vespa sem teto?
E outra aflição me ocorreu: por que sempre sozinha? Existem vespas solitárias? Não sendo vespa, pensei: e se ela morrer? Vespas devem viver pouco. Preocupado, fui consultar na internet. As vespas vivem um ano, diz uma sábia enciclopédia. Teríamos tempo bastante. Mas existem os predadores. Qual seria o predador das vespas solitárias? – me perguntei, já irritado, querendo declarar guerra a esse inimigo desconhecido.
Bobagem. Voltei ao café, ao sanduíche, e ralhei comigo mesmo: deixe de besteira, está atrasada, logo chega. Deve ter achado mel pelo caminho.
Ela chegou quando eu já recolhia a xícara, o pão, o café. Nem se importou comigo e com meus cuidados. Rodopiou, deu seus voos esquinados, aterrissou no pires. E sugou o mel. A vida voltava ao normal.
Foi quando me ocorreu que pensar faz mal ao ser humano. Ela veio não só naquele dia, mas no seguinte. E assim por várias semanas. Era tão previsível que eu colocava o café na mesa e esperava que chegasse. Não demorava. Só então eu tomava o café em sua companhia.
Ocorre que há uma semana tomo café sozinho. Terá sido o frio ou a chuva que caiu por esses dias. A ventania. Quem sabe. Talvez um predador cruzasse seus caminhos. Vida de vespa deve ser acidentada, daí seu voo imprevisível, sempre na defensiva. Vai ver, encontrou mel de melhor qualidade em outro lugar. Trocou meus cuidados pelos de outro cuidador. Mudou-se de bairro talvez.
Uma coisa é certa: ela nunca mais voltou.



segunda-feira, 13 de junho de 2016

Vender livros na Avenida Paulista é crime?




Maurício Eloy na rua, no meio do redemoinho



Em São Paulo acontece de tudo, inclusive o impensável. Especialmente na Avenida Paulista, a sua melhor tradução.
Acontece que o livreiro, professor Maurício Eloy, proprietário de um sebo, está sendo enxotado por policiais pelo fato de colocar seus livros a venda na Av. Paulista, onde se realiza uma feira de artesanato. Os policiais cumprem ordens da Prefeitura da cidade. O argumento das “otoridades” é de uma óbvia estultice. Dizem elas que, não sendo os livros obra de artesanato, não podem ser vendidos naquele local.
Ocorre que venda de livros em espaço públicos, ruas e praças, é prática universal, encontrada em todas as cidades do mundo onde exista praça ou rua. E é uma atividade bem vinda, tanto por divulgar livros e cultura como por proporcionar a livreiros donos de sebo a oportunidade de sobreviver de seu trabalho.
Ademais, além do valor cultural e comercial da venda de livros, acredito que a simples presença de livros em espaços públicos tenha um valor cultural em si. Desperta curiosidade, pesca possíveis leitores, junta gente para bater papo. E livro é também um objeto que dá prazer olhar, tocar, cheirar.
Seria bom que os burocratas da Prefeitura de São Paulo abrissem mão de seu rigor legislativo e deixassem não apenas que o professor Maurício, mas também que outros vendedores de livros pudessem ter um trecho de calçada ou um canto de praça onde vender seus livros.
Juro às autoridades do município que livro não faz mal à saúde nem cria dependência química. Nem mesmo prejudica a visão. Seu consumo, na pior das hipóteses, cria um vício muito saudável: gostar de ler, gostar de escrever, pensar.
Como se vê, não tem contraindicação.

PS: há um abaixo assinado correndo pela Internet a favor da venda de livros na Paulista. Assine.



sábado, 4 de junho de 2016

Sem Muhammad Ali o mundo empobrece.







Muhammad Ali faz parte de uma lista de sujeitos – e declaro que não são muitos - pelos quais tenho grande e confessada admiração. Assistir suas lutas – na época a televisão as transmitia para o mundo todo – era um espetáculo não só de boxe, mas de espírito de luta, de dignidade, de irreverência, de autoafirmação contra racistas, de coerência e de beleza atlética. E de humor.
Ali era um colosso como figura humana, seja do ponto de vista físico seja do ponto de vista humano. Um personagem raro. A meu ver foi o último a incorporar o ideal clássico do boxe: lutar de pé, usando apenas as mãos, respeitando áreas do corpo que possam ser fatais ou muito, digamos, doloridas. A nobre arte, dizia-se.
Mas ele era mais do que isso. Era debochado, gozador, irreverente, autoconfiante. Não tinha papas na língua. Provocava os adversários e, sendo um exímio tagarela, ganhava todas as discussões. Chamou Sonny Liston, o campeão do momento, de “urso velho, grande e feio”.  E não cometia a hipocrisia de dizer-se modesto. Era, já naquele momento, contra essa tolice chamada de politicamente correto: se considerava simplesmente o homem mais forte, o melhor lutador e o homem mais bonito do planeta. E dizia isso fazendo caretas malandras e dando gargalhadas. E o diabo é que era mesmo o mais bonito, o mais forte e o melhor boxeador do planeta.
The best, ponto final. Sobretudo porque, nos EUA do século XX e diante dos preconceitos que o rodeavam, ele personificava uma luta permanente contra o racismo. E lutar contra racistas naquele momento era arriscar a própria vida. Uma tarefa para gigantes. Além disso, contra o instinto belicista dos EUA, recusou-se a ir para o Vietnam matar seres humanos que não julgava inimigos, um povo que nunca tinha feito nada contra ele. Ou, como declarou: “eles nunca me chamaram de crioulo”. Então, por que ir para a guerra para matá-los? Recusou-se e pagou um preço altíssimo. Perdeu títulos, dinheiro, quase tudo.
Mas manteve algo que não tem preço. O senso da própria dignidade. Como um homem negro e como um ser humano livre e independente. Não se rendeu. Continuou a lutar e recuperou seus títulos. E protagonizou aquela que foi a maior luta de todos os tempos: ele contra George Foreman, que deu agora mostras de ser também um grande caráter, ao dizer que com a morte de Ali, que o venceu na célebre luta no Zaire, morria a melhor parte dele mesmo.
Ali é um signo de saúde mental e pública diante desse mundinho atual de pequenos chefetes políticos, de demagogos vendidos, de empresários oportunistas, de arrivistas gananciosos, de gente que cala e consente, de covardes que negam à tarde o que disseram pela manhã, gente que todo mundo sabe que são ladrões e corruptos, mas que se declaram santos na cara limpa. Esse mundinho não teria vez com ele.
Era um dos grandes. Um homem forte e digno. Um corpo perfeito e uma mente lúcida. Uma metralhadora nos punhos e na ponta da língua. Um homem que assumia integralmente o que pensava. Que se arriscava pelas causas nas quais acreditava. Um bailarino elegante em cima do ringue que era também elegante na vida. Um irreverente. Um tipo que não se dobrava. Ao contrário, que dobrava a todos que se metiam no seu caminho. E, se caia, levantava-se.
Enfim, fará falta, mas viverá na memória de muitos que tentarão evitar que ele tenha sido representante de uma espécie em extinção.











terça-feira, 31 de maio de 2016

Telefonando a gente se desentende









Trancafiado num estúdio a trabalhar, meu filho me pede para confirmar uma reserva de passagem aérea. Respiro fundo e sinto o golpe. Todos sabemos o que significa enfrentar telefones dessas centrais de atendimento. Temendo pelo pior, disco para o 0800 da companhia aérea.
Sou atendido por uma voz mecânica:
- Para atendimento em português, disque um, para aten...
Disco 1.
- Se for passageiro, disque 1, se for agên...
Disco 1.
Se for para tratar de reservas, disque...
Disco 1.
- Para sua segurança esta conversa poderá ser gravada...
Minha segurança? Não me sinto ameaçado a não ser pela tal voz mecânica. Alguém nos espiona? Fico perplexo sempre que ouço essa advertência.
Fim da voz mecânica. Entra voz supostamente humana:
- Aqui glub glob tchã plasht!
Que me perdoem os leitores, mas foi o que entendi.
- Alô, senhorita, pode repetir? Com a cabeça fora da água, por favor.
- Como, senhooor?
- Nada, esquece.
- Aqui é Marzita Floripes. Em que posso servi-lo?
Explico: preciso confirmar uma reserva feita por meu filho, pois no site apareceu uma mensagem dizendo que houve um problema de conexão.
- Qual o código da reserva, senhooor?
- Não é possível pesquisar pelo nome do meu filho, dia do voo, saída e destino?
- Não, senhooor.
Antes que me chame novamente de “senhooor”, prolongando molemente a sílaba final, como é costume dessas atendentes, desligo. Ligo para meu filho:
- Pedem o número da reserva.
- Está no anexo ao e-mail, diz ele.
Vou ao anexo. Lá está, em tipo cinza claro sobre fundo branco, praticamente invisível – certamente por razões de segurança. Um teste para míopes.
Refaço todo o caminho, disco 1, 1, 1 etc.
- No que posso servi-lo, senhooor?
É outra voz. Ou será a mesma? Repito toda a explicação. Informo o código de reserva. Ela diz o nome de meu filho, eu confirmo. Ufa! Vai funcionar.
- E o número do cartão de crédito, senhooor?
- Precisa?
- Sim, senhooor.
Desligo. Ligo pro meu filho. Ele me passa o número do cartão. Ligo.
Quando chego ao número do cartão, outra voz me pergunta: e o código de segurança, senhooor?
Nem espero, desligo. Ligo para o meu filho. Peço o código de segurança. Retorno. Depois que informo o código de segurança o clone da primeira voz me pede o prazo de validade do cartão.
A paciência explode:
- Mas por que não pediram antes? É o quinto telefonema que dou!
- Ocorre que jaskl prst weenuf nenúnfares, senhooor.
Desligo. Desconfio ter sido xingado. Aquele nenúnfares me parece suspeito.
Munido do código, do prazo, refaço tudo, e penso que se eu escrever sobre isso os leitores não vão acreditar. Informo todos os dados, pergunto se está tudo correto, a voz me diz, fanhosa:
- O número do telefone de seu filho, senhooor.
Ah, esse eu sei! Agora me vingo! Digo o número e a voz contesta: aqui tenho outro número, senhooor
- Tenho certeza que esse é o número do telefone, senhooora.
- Não é o número que seu filho digitou no site, senhooor.
- E qual número ele digitou?
- Não posso lhe dizer, senhooor.
Desisto. Desligo. Ligo para o meu filho.
- Você tem outro telefone?
Ele me explica que errou o último algarismo ao digitar no site. Refaço todo o caminho. 1, 1, 1, etc. Quando chegamos ao número de telefone explico que no site meu filho digitou errado o último algarismo. A nova voz, por certo percebendo que eu estava de arma em punho, diz que fará a correção sem problemas. E por que a voz anterior não o fez? Deixo pra lá.
- Bom, digo eu, está tudo certo? Não vai anotar o código de segurança?
- Não precisa, senhooor.
Fico atônito:
- Não precisa?! Mas... a outra atendente me pediu...
Ela nem me ouve e encerra o papo:
- Amanhã seu filho receberá um e-mail confirmando a reserva.
E, com voz mecânica, ela dispara a recitar entediada um texto no qual a companhia se diz muito honrada e...
Desligo. É a única vingança que me resta.