terça-feira, 18 de julho de 2017

Estranho amor pelo desconto




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A cada dia temos novos motivos para levar sustos e tropeçar no inaudito. Aliás, sempre pensei que o inaudito fosse a designação de um tipo de arapuca que surge no meio do caminho, havendo ou não pedra no meio do caminho.
Somos atropelados pelo inaudito.
Dia destes recebi uma mensagem inaudita enviada por uma livraria virtual. Como sou tarado por livros, não reclamo destas invasões. Que não interferem nas minhas compras, embora a chuva de e-mails seja diária e furiosa.
Sinto-me uma caça. Sabem meu nome, meu endereço, falam diretamente comigo como se eu fosse o único destinatário de suas mensagens.
Mas o inaudito não é este. É outro. E ele me leva a pensar no mundinho distorcido e desolador em que vivemos. Dizia o e-mail: “Tem como não amar títulos com até 80% de desconto?”
É verdade que o desconto é tentador, restando saber se é real ou maquiado.
Mas também não foi isso que me levou ao inaudito.
O problema está na lógica da frase, que conduziu seu redator ao delírio narcísico. Diz ele, o redator – ou ela, a frase – “como não amar títulos” e oferece a razão: “com até 80% de desconto”.
A palavra amor já foi usada para muitas barbaridades. Para justificar atitudes possessivas, agressões, assassinatos. Para aflorar na boca de atores e atrizes que dizem fazer tudo “com muito amor”. Se forem cozinheiros, cozinham com amor, o tempero principal de seus pratos. Há também o amor pelo time de futebol, animais, natureza, trabalho, pátria e seleção. Muito amor, como se vê.
Pasmo, me perguntei: amar pelos descontos? Quer dizer que um leitor abre um e-mail com ofertas de livros e, vendo descontos avantajados, cai de amores pelos títulos oferecidos?
Estamos num mundinho muito estranho. Que se ame a mulher amada pelos seus olhos ou pelo conjunto da obra, entendo. Que se ame seu país porque ali se nasceu, cresceu e aprendeu o básico da vida, tudo bem.
Mas amar descontos? Amar títulos pelos descontos?
Eis o que eu queria dizer: é o inaudito.
O ser humano sempre foi bicho desconcertante.
A primeira revolução humana começou com o domínio do fogo. Embora resultado da engenhosidade humana, ele foi entronizado como novo deus. O homem ajoelhou-se diante dele. Esqueceu que ele próprio inventara como dominá-lo.
A invenção revolucionária atual é a avalanche ansiosa do hiperconsumo. É preciso se empanturrar de coisas, roupas, carros, bijuterias, eletrodomésticos, bugigangas.
O celular é o melhor símbolo dessa alienação. Se uma catástrofe exterminar com os celulares, teremos o maior surto de desespero na face da terra. Entregues a si mesmos, os humanos já não tolerarão o vizinho e não se olharão no espelho. O confronto final será inevitável.
Eis o inaudito: quem seria capaz de amar descontos? Que ideia é essa de amor? Que ideia de livros? Que ideia de cultura? Que ideia de si mesmo? Que criatura comprará um livro por conta do apelo erótico de um desconto?
Estou exagerando?
Acho que não. Quem exagerou foi o redator dessa triste e involuntária síntese perfeita do mundo em que vivemos.





sábado, 24 de junho de 2017

Filme A Casa de Lúcia, de João Marcelo e Lúcia Luz em Festivais do Rio e em São Paulo






Nos dias 25 e 27 de Junho, A Casa de Lucia participará da Mostra Olhares Sobre o Refúgio, nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.
O filme estreiou no Olhar de Cinema, Curitiba International Film Festival, com ótima recepção de crítica e público.
A Casa de Lucia, Documentário, 2017, 70’.
São Paulo: Domingo, 25 de junho, às 19hs - Local: CineSesc (Rua Augusta, 2.075) 
 Rio de Janeiro: Terça-Feira, 27 de junho, às 19hs - Local: Oi Futuro (Rua Dois de Dezembro, 63, Flamengo)
“A Casa de Lucia” de João Marcelo e Lucia Luz, longa da Mostra Competitiva Outros Olhares, que teve sua estreia mundial no 6º Olhar de Cinema em Curitiba, é um interessante relato intimista e testemunhal da codiretora que dá nome ao filme sobre sua condição de refugiada no Brasil, tanto quanto é ao mesmo tempo uma curiosa triangulação entre três diferentes países e culturas que podem estar muito mais próximos como enfoque humano do que seus problemas podem aparentar.”
Filippo Pitanga, Almanaque Virtual, UOL.
"Um projeto comum de documentário que, graças à urgência do acaso, muda a sua ideia inicial de roteiro e, consequentemente, a montagem. O que deveria ser um relato sobre as condições de Lucia como imigrante, torna-se um filme em que ela mesma se dirige, sobre o trânsito de vir e voltar dois anos depois e os efeitos disso na construção de sua própria subjetividade.”
Emanuela Siqueira, Quadro por Quadro.
"Segundo Aaron Cutler, curador do festival (Olhar de Cinema), há na programação deste ano 8 filmes cuja temática é a situação dos refugiados de guerra, sendo A Casa de Lucia (2017) o filme chave desta seleção.”
Samantha Brasil, Delirium Nerd.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

O sujeito que sabe demais


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O esporte favorito do ser humano é passar rasteira no próximo. Trata-se de velha prática com a qual a humanidade se diverte há séculos. Há variações neste jogo, mudando apenas o grau de crueldade, de sadismo ou de graça com que é praticado.
Uma das formas menos cruentas, mas não menos dolorosa, é a praticada pelo sujeito bem informado. Aquele que sabe de tudo e dispõe de informações secretas. Tipo expansivo, falastrão, de sorrisos malandros. Não raro cutuca nossas costelas com o cotovelo para pontuar as maldades que anuncia.
Digamos que estamos no calçadão da Boca Maldita batendo um papo sem compromisso e comentamos que, nestes tempos bicudos, ao menos a felicidade daquele conhecido casal cuja foto ilustra o jornal da banca da esquina está em alta. O sujeito que sabe de tudo nos olha com piedade e sorriso complacente:
- Não é bem assim. Ficam juntos por conveniência.
E nos explica as farsas e tramoias financeiras que mantêm o falso casamento de pé. Pronto. Lá se foi mais uma de nossas ilusões. Ninguém sabia. Só ele.
Se a questão é política, fazemos um esforço enorme – somos ingênuos, lembra? – para citar ao menos o nome de um deputado ou senador honesto. Depois de longo esforço, citamos um que ainda nos permite acreditar na espécie humana, da qual imaginamos que os políticos façam parte. Ele ataca:
- Que nada...
E nos explica que o tal político é ligado a grupos financeiros. Seus projetos beneficiam suas próprias empresas, todas em nome de laranjas. E arremata:
- Fortuna feita à base de falcatruas.
- Com aquela cara de santo?
- De santo? Cara de pau, isto sim.
Pronto, nem o deputado santinho se salva neste mundo cruel.
Mas insistimos. Lá pelas tantas, damos uma explicação para o sucesso de certo personagem. Claro, nos baseamos em coisas lidas na mídia, onde saltitam elogios a seu caráter empreendedor.
Ele coloca mão piedosa em nosso ombro:
- Você não sabia?
Pronto. Xeque-mate. Só ele sabe. E continua:
- Essas notas na mídia são pagas por ele. Um craque na autopromoção.
- Jura?
- Você não sabia?!
Inútil responder: é claro que não sabia. Só ele sabe.
- Deixa eu te contar uma coisa – diz ele, enquanto nos obriga a dar alguns passos pelo calçadão, como se nos conduzisse a um cadafalso e acomodasse nossa cabeça na direção da lâmina da guilhotina. – Há até uma tabela para estas notas. Com foto, sem foto, com cinco ou dez linhas, com elogios rasgados ou proezas jamais realizadas por ele.
- Não me diga!
- Digo. E digo mais. Quem faz aqueles projetos e escreve aqueles artigos é uma equipe paga por ele. Ele é praticamente analfabeto.
- Como é que você sabe disso?
Ele nos envolve num abraço sufocante:
- Ah, meu caro, como você é ingênuo!
E nos aniquila com a sutileza de um tiro de bazuca:
- Já não existe gente ingênua como você nesse mundo.
Dito isso, anuncia ter um encontro secreto com algum figurão e sai calçada afora, surfando o petit-pavé sem tropicar, cuidadoso e bailarino, distribuindo cumprimentos educados para todos os lados.




segunda-feira, 5 de junho de 2017

O Professor de Deus




Naquela remota cidadezinha do Egito havia um homem que assumira, há muito, o papel de professor de Deus.
Ignora-se como chegara ao posto. Desde menino se julgava o dono da verdade. Alkmerd Tarphat nascera com ar de quem detinha o segredo do mundo. Rosto miúdo e rígido, carrancudo e tenso, distribuía verdades aos que topavam com ele. Pontificava a respeito de assuntos diversos e mesmo sobre aqueles com os quais entrava em contato pela primeira vez.
- Eu penso que... - era assim que iniciava suas perorações.
Havia, no entanto, algo de peculiar nas verdades enunciadas por Alkmerd: partiam sempre das mesmas premissas e chegavam sempre às mesmas conclusões. Tal monotonia argumentativa era compensada, diziam seus admiradores, pela habilidade em colocar entre premissas e conclusão um reluzente sanduíche dialético. Assim:
- Sabemos que... - o que significava: eu sei que - em última análise esta questão se resume à estrutura subjacente. E qual é? A de sempre, como já demonstrei. - E concluía: - Como vimos, salvo opiniões de energúmenos, esta questão fica explicada pela estrutura subjacente já referida.
Estivesse em questão a quadratura do círculo, o melhor pintor impressionista, a matemática moderna, o jornalismo contemporâneo, as mais desenfreadas posições sexuais, a mata Atlântica ou os destinos da humanidade, Alkmerd partia e chegava ao mesmo lugar, mergulhado na verdade absoluta.
Com o tempo, o número de seus admiradores só fez crescer e de todas as regiões do Egito e demais terras conhecidas vinham caravanas de discípulos para ouvi-lo. O que criou problemas religiosos. Mesmo não incentivando à desobediência, - já que a religião está estruturalmente determinada etc. etc., donde se conclui que etc. etc. - seus ouvintes acabavam sem tempo para a fé, pois Alkmerd falava horas seguidas, dependendo da relevância do tema e das estações do ano.
Tamanha foi a deserção de fiéis, que um dia o próprio Deus, que na época se chamava Rá, veio ouvi-lo. Deus sentou-se numa cadeirinha de palha e Alkmerd continuou falando com a mesma serenidade, como se nada de excepcional estivesse acontecendo. Ao final, Deus solicitou para estar reservadamente com ele – ou Ele, como preferia.
A entrevista foi concedida, mas antes Alkmerd impôs uma espera de mais de três horas. Humilde e paciente, Deus aproveitou para conversar com seus vizinhos de fila: uma senhora com unha encravada e um empresário endividado. Ao final da noite, foi atendido.
- O que o senhor deseja? perguntou Alkmerd, usando senhor com inicial minúscula.
- Eu, desde sempre, e isso faz tempo... – disse Deus com refinado humor, o que escapou a Alkmerd -, me torturo com algumas questões, digamos, metafísicas ou meta-mim-mesmo. Por exemplo: por que criei o mundo? Embora tenha sentido um impulso irresistível, não entendo porque rompi a solidão em que vivia desde a mais remota eternidade. E tenho outras dúvidas...
- Por gentileza, uma pergunta de cada vez. Questão de método – cortou Alkmerd.
- Entendo, resignou-se Deus, calando-se.
Alkmerd passou a dissertar. Depois da frase de abertura – eu penso que tudo se resume etc. - censurou Deus por ter agido de modo irracional, cedendo a um impulso cuja motivação desconhecia. O irracional perverte os melhores projetos, declarou. Depois do pito em Deus, fez uma extensa conclusão que, em resumo, dizia que a estrutura subjacente, em última análise etc. etc.
Deus indagou se podia fazer outra pergunta. Alkmerd consentiu.
- Há outra coisa que não entendo. Para que criei o universo e, nele, o homem? Isso me causa noites de insônia – e minhas noites, falando nisso, também são eternas...
Alkmerd, sem entender a piadinha, voltou a censurar o irracionalismo de Deus. Até um pipoqueiro, disse, sabe por que e para que faz pipoca - e atacou a argumentação com fôlego renovado. Fez a introdução, desenvolveu, concluiu.
Alguma coisa, porém, se alterara na expressão de Deus.
- Sábio Alkmerd Tarphat, o senhor acaba de me dar a mesma resposta para uma pergunta diferente. Além do mais, tudo lhe parece óbvio. A mesma estrutura subjacente...
- É a ordem universal das coisas, meu caro!
- Mas quem lhe disse isso?
- Eu mesmo.
- E isso vale para a unha encravada, a economia e a origem do universo?
- Seguramente.
Foi quando Deus se levantou, respirou fundo e disse:
- Ora, senhor Alkmerd, o senhor vá à merda.
Disparada a frase, Deus voltou aos céus, onde continuou todo-poderoso e com a consciência tranquila.






quarta-feira, 31 de maio de 2017

O que fazer num domingo qualquer? Ou: Ozzy Osbourne



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Temos hoje um domingo cheio de nuvens volumosas que se movem por cima do prédio. Nuvens domingueiras, não aquelas que se exibem nas segundas-feiras, sempre agitadas e nervosas. As nuvens de segunda se espicham ansiosas e avançam velozes. Já as nuvens de domingo são lerdas. Rolam por cima de um azul esperançoso, feito de preguiça.
Fico em dúvida, pois mesmo um tipo desinteressado de aventuras mundo afora encontra problemas quando decide perambular por aí. Eis meu dilema no momento: vou caminhar ou pedalar? Caminhar sempre é bom e pedalar idem. Mas domingo é um dia que reservo para pedalar, havendo menos automóveis pelas ruas.
Mas essa não é minha única dúvida: me perturbam duas outras questões. Continuo a ler ou volto para a cama e durmo mais um pouco?
Eis aí. A vida é complicada e cheia de alternativas conflitantes. Em poucas linhas já encontrei quatro caminhos possíveis e nenhuma solução. Sem contar outras coisas que poderia fazer nesse domingo preguiçoso com suas nuvens que agora oscilam entre o cinza e o branco brilhante e rolam na direção leste como se bocejassem.
Já houve tempo em que eu me colocava problemas em torno dos rumos da humanidade, da economia, do pensamento ocidental e do time do Atlético Paranaense. Hoje, sou mais modesto. O mundo que me importa é menor, já que o maior não parece ter conserto mesmo. A cantora inesquecível, Maysa, cantava que seu mundo caiu. O meu encolheu. Ou não?
Vou até a varanda e dou uma namorada no tempo. Não faz frio e o vento não é dos mais chatos – é fraco e até gentil. Bom para pedalada. Eis que começo a me decidir.
É quando ouço um latido. Sei de quem se trata.
É Ozzy. Ou, com nome e sobrenome, Ozzy Osbourne, um nervoso e agitado cãozinho que se dependura furioso na grade do quarto andar ao me descobrir na varanda. Não gosta de minhas aparições. Também, homônimo de um astro do rock, se irrita fácil.
Foi batizado pelos meus amigos Vanessa, Maurício e a filha Letícia. Deram esse nome ao cãozinho, eles que são roqueiros, imaginando que ficariam impunes. Não. Um nome carrega uma energia própria, dizem as cartomantes, as quiromantes e, não raro, as amantes.
Assim batizado, Ozzy saiu-se nervoso e irritadiço, centralizador e ego maníaco. E simpaticíssimo, é claro. Verdadeira estrela de banda de rock. Ele segue latindo e eu, que não sei latir, devolvo a ele um cumprimento:
- Alô, Ozzy, bom domingo!
Ele rosna feito cachorro grande. Saio da varanda e ele fica em silêncio. Deve estar espiando para ver onde me enfiei. É quando imagino que posso dar um susto nele e volto súbito à varanda. Perdi. Ozzy desinteressou-se de mim e se foi.
Fecho a porta da varanda e torno a pensar nas minhas quatro alternativas: voltar a dormir, continuar a leitura, caminhar, pedalar.
O sol vence as nuvens aos poucos e decido pela bicicleta. Quando saio pedalando da garagem e atravesso a rua, Ozzy, de volta a seu posto, dispara a latir. Pelo tom, não gostou da opção pela bicicleta.

Na volta explico a ele, penso eu, e vou em frente. Não se pode agradar a todo mundo. Muito menos a um astro do rock.




terça-feira, 9 de maio de 2017

Cultivando o meu jardim




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Entre as minhas ignorâncias – que são vastas e robustas – não saber nomes de plantas, pássaros e árvores me chateia muito. Com esforço – e erros crassos – consigo reconhecer apenas rosas, jasmins, margaridas. Tempos atrás, morando numa casa com um jardim que era quase um pomar, me visitou um amigo que foi nomeando minhas plantas feito um Adão primaveril batizando as coisas do mundo. Desconfiei. Conhecedor de minha ignorância no assunto, quem sabe estivesse inventando aqueles nomes.
Seja como for, a verdade é que cuidava muito bem do meu jardim. Aprendi tarde, mas os resultados foram bons. Além disso, virei o sujeito que tem “mão boa”. O que planto, nasce. Cresce e floresce bonito. É o que me basta.
Este gosto pelo jardim resultou de uma esquisitice que adquiri há uns anos: passei a acordar cedo. Ao longo de minha vida de professor, sempre acordei tarde, depois das dez da manhã, quando já estava dando a terceira aula do dia. Os alunos imaginavam que meu ar desligado fosse resultado de profunda concentração na matéria lecionada. Não era. Tratava-se de uma forma de dormir em pé que desenvolvi para sobreviver na profissão.
Anos depois disparei a acordar antes das seis. De início, ficava lendo, ouvindo rádio – duas maravilhas da vida, livros e rádios – mas com o tempo comecei a ser expulso da cama por uma necessidade de andar de um lado para outro. Como andar não é coisa fácil de ser feita dentro de casa, descobri que havia o jardim. Lá era possível andar sem incomodar aos que dormem e sem parecer mais esquisito do que já sou.
Foi assim que comecei a me ocupar do jardim, fazendo coisas que não seriam recomendadas por especialistas – embora eu raramente ouça a especialistas.
Agia assim. Conferia o crescimento de plantas e árvores, observando flores e frutos nascentes e as chamadas ervas daninhas. Gastava nisto um bom tempo e, embora não saiba nomes de plantas, conhecia cada uma do jardim. Pessoalmente, quero dizer.
Em seguida, fazia limpezas. Retirava as ervas daninhas, arrancava folhas e galhos secos, podava o que parecia estar sobrando. Não seguia regra alguma, o que deixa horrorizados quem entende do assunto. Dizem que há uma estação certa para podar, um modo de se fazer o corte segundo a lua, a estação, o tipo de planta etc. Levo em conta apenas o lado estético. Se um galho está brotando numa direção que não me parece razoável, podo. Funciona.
Descobri que a poda não pode ser piedosa. Não raro, tenho pena de podar certos galhos, mas podo mesmo assim. É como escrever. É preciso alguma crueldade nisso, mas se trata de crueldade boa e generosa. A planta se renova.
O pé de goiaba e o abacateiro já renderam fartas distribuições a amigos. O limoeiro por várias vezes me deixou orgulhoso e despertou a desconfiança de um amigo, o escritor Manoel Carlos Karam, o craque dos textos absurdos. Levei a ele uma sacola de limões e ele me acusou de tê-los passado no Photoshop, de tão bonitos. Impossível melhor elogio.





domingo, 5 de março de 2017

Uma cantora do rádio




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Ainda no berço, eu era irrequieto e reclamão. Tendo minha mãe mais o que fazer, ela descobriu que o rádio era um santo remédio para minha agitação. Começava assim a minha paixão por esse meio de comunicação que é, sem dúvidas, o melhor amigo do homem.
Naquele tempo, o rádio ficava entronizado num canto ilustre da sala, compondo uma espécie de oratório profano. Por isso minha mãe arrastava o berço para perto dele. Havendo música ou falatório no rádio, eu ficava atento, girando os olhos em busca da fonte de tanto som. E me acalmava de imediato.
A verdade é que minha mãe era vidrada em rádio. Tínhamos um aparelho enorme, tipo capela, que ficava ligado o dia inteiro, sintonizado na rádio Nacional do Rio de Janeiro, ondas curtas. Ela ouvia noticiários, programas de calouros e programas dos astros da época, Chico Alves entre eles. Além de novelas. Na verdade a sintonia só mudava pela manhã, quando meu pai, atendendo a seu lado caboclo, tomava café ouvindo música caipira na rádio local. Mal ele saía para trabalhar, lá ficávamos nós no embalo da rádio Nacional.
Ela conversava com o rádio como se ele fosse gente. Reclamava de cantoras chorosas – “parece uma gata miando!” – ou cantores trovejantes – “esse engoliu um trombone!” Ou xingava o locutor do noticiário por razões que me escapavam.
Certa ocasião veio trabalhar lá em casa uma moça chamada Isabel. Vinha do interior e jamais vira chuveiro ou rádio. Com o chuveiro se acostumou fácil. Já com o rádio teve dificuldades. Olhava desconfiada para aquela caixa, passava ao largo. Um dia minha mãe reclamou:
- Isabel, você não passou um pano no rádio.
Isabel se encolheu:
- Mas a senhora desliga ele antes, né?
Só mudo o rádio pode ser espanado.
E os sustos de Isabel continuaram. Um dia, ouvindo um locutor que a irritou, minha mãe avançou na direção do rádio e o desligou com fúria:
- Cala a boca, bobalhão!
Isabel juntou as mãos contra o peito e arregalou os olhos:
- Credo, dona Ondina!
- O que foi, Isabel?
- O homem do rádio não fica chateado quando a senhora grita com ele?
O rádio fez parte da minha vida desde um tempo em que eu não tinha a menor ideia do que fosse minha vida. Acabei guardando na memória um repertório anterior ao meu nascimento. Devo à minha mãe essas aulas de cultura musical.
Vida afora ela ouviu rádio e preservou a lembrança de um Rio de Janeiro do qual falava como se acabasse de voltar da Confeitaria Colombo.
Aos oitenta e seis anos, morando em casa de repouso, a sua memória confundia tudo. Eu chegava, ela me examinava:
- Tu és o Otávio ou o Odílio?
Eram seus irmãos, já falecidos.
- Sou eu, seu filho.
- Quem? – seu olhar de viés duvidava.
Nas aulas de musicoterapia, ela se animava. A primeira a acompanhar as músicas, cantarolando sambas, boleros, sambas-canções, tangos, valsas. Os médicos se espantavam com sua memória musical, mas, se um deles perguntava:
- Sabe quem eu sou?
Ela resmungava:
- Sei lá! – e apontava a cozinha: Me traz um café.
Já não podia ingerir líquidos.
Mas cantava que era uma beleza.